Edição n.º 15, agosto de 2013

Aproveitar as férias com a cabeça já no próximo ano. É esta a realidade de milhares de professores.

Começámos em Vila Nova de Gaia e fomos descendo até Leiria. Pelo caminho, passámos por Coimbra e pela Figueira da Foz. Fizemos estas entrevistas após o fim das aulas, altura em que os alunos já estão de férias. Mas quem não está são, certamente, os professores. Aliás, o trabalho manteve-se, sem descanso, até finais de julho. E em agosto com a cabeça já no próximo ano letivo, com todas as certezas ou incertezas que o próximo ano possa trazer.

Foi isto que percebemos quando Vitorino Silva, professor de História com 31 anos de carreira, de Vila Nova de Gaia, diz que o que pretende nestas férias é conhecer alguma cidade ou cultura que ainda não conheça. Isto porque não hesita em justificar esta decisão com um misto de vontade, “porque os professores precisam de estar sempre à procura de saber mais, de enriquecer os conhecimentos”, mas também de necessidade, “porque a função do professor é muito exigente, física e mentalmente, e este ano houve bastantes períodos de incerteza em relação ao futuro que deixaram marcas em todo o processo educativo”.

É este nível de ansiedade que muitos professores lamentam. Ansiedade “porque não se sabe com o que contar ao longo do ano”, como exemplifica Vitorino ou Mónica Pinto, professora de Matemática com 12 anos de carreira, também de Gaia, que não acha “normal” sair um decreto-lei sobre a avaliação no mês de dezembro. “A nível institucional, acho que em 12 anos nunca tive um ano tão mau. Foi o mais desorganizado que já vi”, não hesita em dizer.

Ansiedade também porque nem todos os professores conseguem dizer onde vão estar a lecionar no próximo ano. Jorge Monteiro, professor de Espanhol com 15 anos de carreira, de Coimbra, acredita que terá horário no próximo ano, “mas há o problema da geografia”, refere. “Nada me garante onde vou estar, posso ter de mudar de casa.” Em situação semelhante está Maria José Loureiro, professora de 1.º ciclo há 12 anos, atualmente em Leiria. “Como é que vou ter férias, este ano, se não estou estável? Mudam as regras do jogo e nunca sabemos com aquilo que contamos”, referindo-se ao facto de ser professora de Quadro de Zona Pedagógica, agora com uma abrangência territorial diferente.

Na mesma sala em que se encontrava Maria José estava também Isabel Pereira, de Português. Com 27 anos de docência, em Leiria, recorda que ficou na primeira escola a que se candidatou na altura e nunca mais saiu de lá. “Mas nem nós, efetivos, temos muita segurança naquilo que pode mudar na carreira”, afirma. “Este ano, por exemplo, foi bastante complicado, fruto das várias alterações, quer a nível de legislação quer a nível de novos acordos estabelecidos. Daí ter terminado como terminou. Além disso, desde 2004 que não tenho nenhum aumento de ordenado ou progressão na carreira, e a verdade é que desde que me lembro que tenho tido sempre cargos de coordenação ou direção.” O que já a “satura” e “cansa”, refere.

"Antigamente, tínhamos sempre coisas para fazer. Hoje, temos sempre coisas por fazer.”
José Godinho

A desmotivação tem sido um sentimento comum a muitos professores, sobretudo os que têm uma carreira mais longa e têm visto o panorama a alterar. Diana Magalhães, docente de Francês há 20 anos, atualmente em Vila Nova de Gaia, teme os próximos anos. “Este foi o primeiro ano em que já a meio estava a pensar no seu final”, desabafa. “Mas a verdade é que quando chegava à sala de aula esta desmotivação desaparecia, o que quer dizer que é algo externo à escola, exterior à função.”

"Tenho a ideia de que não há uma noção global da importância estratégica da educação e dos professores.” Jorge Monteiro

E estará a sociedade portuguesa a valorizar a função do professor? “Já valorizou mais”, diz. “Adoro ser professora. Sempre quis ser. Mas acho que hoje o professor é bem menos valorizado do que eu valorizava quando era aluna.” A razão para tal, segundo Diana, está na comunicação social e na política, “pois ambos veem a educação como mais um produto da economia”.

 

 
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