Aconselho os professores a aproveitarem as suas férias."

Edição n.º 15, agosto de 2013

Com as tão desejadas férias a decorrer, entrevistámos Rui Mota Cardoso, doutorado em Psiquiatria e professor catedrático da Faculdade de Medicina do Porto, sobre o stress na carreira docente.

Segundo um estudo revelado, no ano passado, pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada, metade dos professores portugueses sofre de stress, ansiedade e exaustão. Este estudo, iniciado em 2009, resultou de um inquérito a 807 professores, na sua maioria de escolas públicas.

Agora que as férias estão aí, o Magazine de Educação foi falar com Rui Mota Cardoso, médico psiquiatra e especialista em stress na profissão docente, que nos explica o que é o stress nos docentes e o que podem os professores fazer nestas férias para gerirem o seu cansaço e alguns estados emocionais mais extremos.

Rui Mota Cardoso é autor dos livros O Stress na Profissão Docente – Como prevenir, como manejar e O Stress nos Professores Portugueses, ambos editados pela Porto Editora.

De uma forma genérica, o que é o stress?

O stress é um estado de combate corpo a corpo entre o que “eu tenho vindo a ser” – ou seja, a minha individualidade – e o meio (externo e interno) que me quer ver sujeitar a novos exigências, desafios, ameaças, tensões, sobrecargas e obstáculos. Essa luta exige superação ou claudicação e, neste caso, “o corpo é que paga”.

De que forma é que esse stress se manifesta nos professores? Acha que o mesmo tem aumentado nos últimos tempos?

A resposta ao stress envolve quatro tipos de perturbações: motoras, fisiológicas, cognitivas e afetivas. Naturalmente que estas perturbações, no stress docente, se vão repercutir não só na qualidade de vida e na saúde dos docentes, mas também na qualidade do ensino prestado, na relação docente-discente e no ambiente psicológico e institucional do estabelecimento de ensino.

Não possuo estudos recentes que me possam assegurar que o stress docente tenha aumentado nos últimos tempos. Tenho sim consciência de que os fatores responsáveis pelo mesmo, aferidos no estudo que orientei em 2001, têm aumentado.

E quais são esses fatores?

Volto aos resultados do estudo de 2001. Cito, por ordem decrescente de explicação da variância, as cinco mais importantes fontes de stress docente: perda de estatuto, conteúdo do trabalho, imprevisibilidade e perda de controlo, pressão de tempo e insegurança profissional. Em 2001, a indisciplina era apenas a sexta fonte de stress docente.

Que consequências existem para os alunos e para a escola quando um professor está nesta situação?

Realço que o stress influencia não só as capacidades cognitivas do docente como, sobretudo, perturba as suas capacidades afetivas e volitivas, a sua atenção e disponibilidade, a sua motivação e empenho. A relação docente torna-se distante e fria, o trabalho pesado e esforçado e o trabalho degrada-se num emprego. A qualidade do ensino diminui, o absentismo aumenta, a cultura institucional desagrega-se.

 

E como pode, então, o professor prevenir ou resolver este estado?

A profissão docente tem razões intrínsecas de exposição ao stress (tarefa não passível de previsão e de difícil controlo antecipado, comportamento dos alunos, sobrecarga emocional, etc.), mas o certo é que, pelo menos nos nossos dias, as fontes mais prementes de mal-estar e tensão são extrínsecas ao docente e, inclusive, à escola onde trabalha, tendo nome em instâncias mais complexas, sociais e comunitárias, em que estatuto, imagem, opinião pública e decisão política não são alheias.

As atitudes preventivas concretas não podem culpabilizar o indivíduo isolado (porque ineficazes e injustas) e só resultam numa estratégia de intervenção simultânea sobre as escolas, os professores, as relações entre as escolas e os professores e o setor educativo.

Mas a escola ou os pais podem dar algum tipo de contributo no combate ao stress dos docentes ou é algo altamente individual que só o próprio poderá resolver?


Se houve novidade no campo do combate ao stress docente, essa novidade surgiu da preocupação com a problemática institucional e laboral do stress e o redimensionamento realista do problema individual do mesmo.

Os esforços preventivos orientam-se cada vez mais por uma estratégica multifocal e multissistémica, com origem nas preocupações do estabelecimento de ensino, que os inclui na sua estrutura organizativa, nos seus objetivos de gestão e nos seus planos anuais de atividade.

Que técnicas de combate ao burnout podem os professores realizar?


Antes de mais, uma vida saudável, com interesses e atividades extraprofissionais e uma afiliação a grupos de pares, onde possam discutir expectativas, desilusões, problemas e vulnerabilidades. E sempre a cuidarem da identidade e das suas raízes.

Depois, a aprendizagem de uma boa gestão das situações de stress e da identificação precoce dos primeiros sinais de esgotamento.

Por fim, algumas técnicas poderão ser úteis, a saber, exercícios de relaxamento, técnicas de reinterpretação cognitiva das situações stressantes, técnicas de aptidões sociais e técnicas de gestão do tempo.

Agora que as férias estão aí, que conselho gostaria de dar aos professores para este período? Há algumas orientações que gostaria de apresentar para se prepararem para o próximo ano letivo?

No stress, é a individualidade da pessoa que é posta em ameaça. Todo o sofrimento nasce da perda de um sentido e razão para o nosso ser-em-devir. O ser-em-stress é aquele que sente ameaçado este devir e, sobretudo, o sentido e a razão desse devir. O ser-em-stress é aquele que, no limite, está perante a ameaça do sem sentido da sua existência.

Aconselho, então, os professores a aproveitarem as suas férias para voltarem às fontes onde construíram a sua individualidade. Aconselho-os a voltarem aonde possam redescobrir essas fontes ricas de significados e rememorações: principalmente a retornarem, para de novo os vivenciarem, ao corpo, à natureza, à infância e às raízes com que primeiro se identificaram.

Na esperança de neles recuperarem a certeza do que foram e são e neles beberem o élan vital que, dando sentido a um passado, os projete, na adversidade do presente, num futuro coerente e prenhe de sentido.

 

 

 
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