Edição n.º 13, dezembro de 2012

Aumento do número de alunos que dependem da escola para almoçar preocupa professores e diretores.

Também nas escolas é de crise que se fala. E é unânime que as crianças devem ser alertadas para esse facto, ainda que de acordo com a faixa etária e o contexto familiar dos alunos. Mas o papel da escola passa, sobretudo, por as proteger.

Miguel Almeida, coordenador da Escola EB1/JI das Flores, no Porto, não tem dúvidas que os pedidos de ajuda por parte dos encarregados de educação aumentaram e refere que esses pedidos vão desde a oferta de material escolar ao almoço na cantina. “O apoio da escola passa por ajudar o mais que podemos, mas nós também estamos com o orçamento mais limitado este ano.”

“Com maior ou menor dificuldade, vamos conseguindo atravessar esta crise sem que os alunos sintam dentro da escola o que realmente sentem lá fora.” Miguel Almeida

Para que as escolas possam continuar a suportar estes apoios a pais e alunos, há que fazer uma “ginástica orçamental”, como refere Miguel Almeida, e alguns exercícios passam por pequenas decisões administrativas. “Este ano, por exemplo, decidimos retirar o papel higiénico das casas de banho. Como somos uma escola de 1.º Ciclo, havia muito desperdício. Agora, o aluno pede à professora em sala de aula. No final do ano, conseguimos poupar algum dinheiro.”

Mas também na cantina se evita o desperdício. Filinto Lima, vice-presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas e diretor do Agrupamento de Escolas Costa Matos, em Vila Nova de Gaia, é perentório: “Aqui na escola não há desperdício. Os alunos comem tudo o que vem para o prato.” E essa é uma forma de explicar às crianças o que é a crise e o que fazer para a minimizar. Mas dá outros exemplos. “Os próprios professores aproveitam a oferta complementar que foi dada ao currículo das escolas para abordar este tema da crise e da austeridade. Embora algumas crianças nos digam, ainda de forma mais pertinente do que nós, professores, o que é a crise.”

 

Filinto Lima, que é também o coordenador dos diretores da Região Norte do Conselho das Escolas, sente-se preocupado, não porque as crianças passem dificuldades nas escolas – aí ele assegura que não acontece, “nem que pague o almoço do meu bolso” –, mas assume não saber se as crianças têm o que comer ao jantar e ao fim de semana. “Os pais, neste momento, já perderam a vergonha e vêm aqui falar comigo porque não têm material escolar nem dinheiro para a refeição dos filhos.”

Eu penso que não é um papel da escola, mas a verdade é que há alguns pais que precisam de aconselhamento, de alguém que os oriente a lidar com o estado atual das coisas.” Filinto Lima

Para além dos apoios das autarquias – que também diminuíram, fruto das contenções orçamentais a que as câmaras estão sujeitas –, algumas escolas contam com a sociedade civil para cumprir o seu papel. “Ainda este ano fui contactado por dois cidadãos bem posicionados na sociedade que me contactaram a pedir para ajudar duas crianças realmente carenciadas”, exemplifica Filinto Lima. Ainda assim, o diretor é da opinião que as juntas de freguesia devem estar mais atentas à realidade das suas populações. “Confesso que não sei mesmo se as crianças têm o que comer quando chegam a casa.”

Temo que a crise possa fazer crescer as crianças demasiado cedo, queimando etapas, tornando-as conscientes de uma realidade nua e crua demasiado depressa.
Eugénia Morais

Opinião semelhante tem Eugénia Morais, professora na ES/3 de Almeida Garrett, em Vila Nova de Gaia. “Tem de haver um cruzamento de dados para ver se as pessoas efetivamente necessitam dos apoios que andam a receber”, refere. Professora há 37 anos, assume a posição da escola em estar atenta aos comportamentos e perda de rendimento escolar pelos alunos e tentar perceber se isso se deve a dificuldades económicas dos encarregados de educação. Até porque, com esta crise, as crianças ficam “conformadas” nas escolas e “sem grandes expectativas no futuro”. “Não sei o que vai acontecer a muitas destas crianças”, desabafa.

 

 

 

 
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