Quem semeia leituras... colhe bons leitores
Armanda Zenhas
Quem semeia leituras... colhe bons leitores
Quem semeia leituras... colhe bons leitores

Semear leituras é desenvolver leitores competentes, é semear criatividade, é aumentar a curiosidade e a inteligência e, assim, promover a aprendizagem e o saber.

"Todas as manhãs, às dez horas, uma fila de pessoas impacientes amontoava-se junto ao balcão das informações, perguntando, reclamando, exigindo livros. (...) a única certeza era de que já não havia livros novos há mais de dois meses. (...)

Tudo era surpreendente: aquela fábrica que era afinal uma cozinha; (...) aquela horta, onde não cresciam feijões nem couves, mas sim pontos finais, vírgulas e pontos de exclamação; aquelas árvores que não davam maçãs, nem laranjas, mas sim As, Bs, Cs, Ds... (...)


– Eu lembro-me! Cada uma de nós semeou o livro de que mais gostava!
– Ah! Acho que já compreendi: a semente é um livro!"

                               BOTELHO, M. (2008). As cozinheiras de livros. Lisboa: Editorial Presença

A perturbação causada pela falta de livros nesta cidade de Margarida Botelho obrigou os sábios a intensas investigações, para descobrirem que esses objetos mágicos eram cozinhados a partir de plantas semeadas para tal. A sua semente: um livro.

Os jardins de infância do Agrupamento Vertical de Escolas de Leça da Palmeira e Santa Cruz do Bispo decidiram semear leituras. Semeando leituras, têm vindo a semear o gosto pela leitura e uma maior facilidade em aprender a ler e a escrever, nas crianças, bem como a partilha de afetos, de livros e de gosto pela leitura, nas famílias. Este projeto serviu de mote para levar o Projeto aLeR+ a todo o Agrupamento (projeto pioneiro a nível nacional, que integrou 33 escolas do país).

Neste artigo não vou descrever exaustivamente o projeto, dada a sua riqueza. Darei a conhecer algumas das vertentes e atividades realizadas, esperando que deem lugar à criatividade e a novas sementeiras noutros locais.

Vamos semear leituras... na sala de aula
– Produção de livros: Os meninos ouvem/inventam uma história, que é escrita pela educadora ou copiada pelas crianças. Cada frase é ilustrada e colada numa folha. A capa é elaborada pelas crianças, com diferentes técnicas e materiais.

– Produção de quadros: Após ouvir uma história, a criança produz um quadro, com diferentes materiais e técnicas. Outras vezes a criança faz o quadro e, depois, conta a história que ele ilustra.

– Recriação de contos: Os contos ouvidos são recriados de diferentes formas (fantoches, slides, teatro-sombra), que permitem a apresentação às famílias.

– "Canto dos pais" – Os pais são convidados a virem à aula contar uma história.

Vamos semear leituras... com os pais
– Cada criança leva para casa uma frase iniciada, submetida a um tema, para ser completada com os pais. Ex.: tema – "Vamos semear a amizade."; frase para completar – "Um amigo é..."; frase devolvida por uma família — "Um amigo é aquele que entra na nossa vida quando todos os demais se vão!".

– Fichas de leitura de fim de semana: A criança e a sua família leem um livro e, depois, preenchem uma ficha, com um desenho feito por todos e um comentário da família. O livro "Come a sopa, Marta!", de Marta Torrão, originou este comentário: “É uma história muito engraçada e para nós até foi bom, porque o nosso filho, em casa, diz que não gosta de sopa, só de ‘canjinha de galinha’. Pode ser que a partir de agora comece a comer a sopa também em casa.”

– Livros interativos: São feitos pelas crianças com a família. O livro vai para casa de cada aluno durante 3 ou 4 dias. Aí são lidos contos populares, provérbios, lendas, aos quais são acrescentados novos textos.

– Diário interativo de um bichinho de estimação: A escola tem um animal de estimação (periquito, hámster). Durante a semana, ele é tratado pelas crianças e educadoras, passando os fins de semana, rotativamente, em casa de cada criança. A família escreve o diário da estadia do bichinho-hóspede.

– Apoio aos pais: Foram dinamizados encontros com os pais para os apoiar na formação dos seus filhos como jovens leitores, que incluíram fornecimento de materiais de apoio e sugestões de leitura.

Semear leituras... com "Embaixadores de Leitura"
Pretendendo-se envolver a comunidade local, foram estabelecidas parcerias com vários estabelecimentos da região, que foram designados como "Embaixadores da Leitura". Entre eles conta-se uma livraria, que, além de promover o livro infantil, divulga também várias formas de arte. As crianças produziram sacos ilustrados por si e a livraria utilizava-os para os livros destinados a oferta. Os pequenotes, por seu turno, visitavam a livraria e faziam aí a "hora do conto". Trata-se de uma iniciativa com múltiplas dimensões, que associa o gosto da leitura ao gosto da escrita, faz germinar a sementinha que fará colher bons leitores e liga escola, família e comunidade.

Uma boa aprendizagem da leitura e da escrita pode dever muito do seu sucesso ao trabalho feito nos jardins de infância, onde, como no projeto "Semear Leituras", podem ser trabalhados pré-requisitos para essa aprendizagem, nomeadamente conhecimento de vocabulário, conhecimentos acerca da escrita e sensibilidade fonológica. Exemplos de conhecimentos importantes nesta fase são: saber que se escreve/lê da esquerda para a direita e de cima para baixo; saber colocar o livro na posição correta para iniciar a leitura; saber que o nosso discurso se "parte" em palavras (Lopes, 2006).

Apesar de a ligação entre a família e a escola tender a decrescer à medida que os estudantes se vão tornando mais autónomos, com um tão bom trabalho inicial, as bases estão lançadas para poderem ser rentabilizadas nos níveis de ensino subsequentes. A tipologia de Epstein, investigadora norte-americana, pode ser um instrumento muito útil na elaboração de um programa de colaboração abrangente e adequado, permitindo o diagnóstico da situação e a definição de necessidades e sugerindo práticas adequadas, que podem ser uma fonte de inspiração para a criação de outras, entre as quais, projetos idênticos ao "Semear Leituras" (Zenhas, 2006).

Semear leituras é desenvolver leitores competentes, é semear criatividade, é aumentar a curiosidade e a inteligência e, assim, promover a aprendizagem e o saber. A escola e a família, como parceiros nessas sementeiras, são aliados no desenvolvimento harmonioso das crianças que os ajudam nas sementeiras e se alimentam dos seus frutos.
Quem semeia, colhe...

Bibliografia:
ZENHAS, A. (2006). O papel do diretor de turma na colaboração escola–família.
Porto: Porto Editora. LOPES, J. A. (2005). Dificuldades de aprendizagem da leitura e da escrita. Porto: Edições ASA.

In Educare, Quem semeia leituras... colhe bons leitores.

Armanda Zenhas — Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.

 

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