Manifesto a favor da desprogramação do tempo livre das crianças
Manuel Rangel (1956 – 2015)
Manifesto a favor da desprogramação do tempo livre das crianças
Manifesto a favor da desprogramação do tempo livre das crianças

Há, hoje, uma tendência muito frequente para se ocupar na totalidade e em permanência o “tempo livre” das crianças — que, por isso, desde logo, deixa de o ser! Situo esta reflexão, fundamentalmente, na faixa etária dos 3 aos 10-12 anos de idade, embora o problema, eventualmente, se coloque de forma semelhante noutras faixas etárias.

Para além das constantes correrias de ida e volta para a escola (seja de que nível for), do tempo institucionalizado nas mesmas, do cumprimento de horários a que as crianças estão sujeitas, há ainda a tentação frequente de encher por completo a vida das crianças com “programas” e atividades marcados.

São, desde logo, as atividades do fim do dia. A criança sai da escola (ou do jardim de infância) e vai um dia para a catequese, dois dias para a natação, mais outros dois para o futebol, para o basquetebol ou para o ballet, um outro para a música ou para o xadrez.

O fim de semana é curto para tanto “programa” — para além da aula de Inglês, música ou equitação, marcada para o sábado, porque já não cabe à semana, há a dormida em casa do amigo, pedida (quase exigida) pela criança; a ida ao cinema e ao bowling, combinada pelos pais; o passeio pelo centro comercial, para fazer aquelas compras tão necessárias(!); a festa de anos do coleguinha da sala; o prometido jantar no fast-food com os amigos... Enfim, uma atividade frenética, sem parar!

Mesmo na escola (e logo no jardim de infância), o que se pede, em geral, são muitas atividades — e das “sérias”, porque o futuro nos espreita. Ou seja, quanto mais académicas melhor. Muito tempo de sala de aula e, nessa, o maior número possível de fichas, de cadernos de exercícios e de testes. Quantos mais melhor!

No fim de tudo isto (e no meio), no tempo (pouco) que lhes resta, ficam à frente da televisão ou agarrados ao computador ou à consola de jogos.

Acresce a este ritmo “programado” e alucinante o facto de as crianças viverem hoje em famílias em geral pequenas, com poucas crianças, em espaços normalmente exíguos, em cidades com uma vida agitada, cheias de perigos e com poucos espaços livres de lazer.

Onde fica, pois, o tão necessário tempo (e o espaço) para a criança mexer e se mexer, para a criança saltar, correr, trepar, para se sujar? O tempo para explorar livre e abertamente o mundo à sua volta?

O tempo para que a criança organize livremente o seu próprio tempo?

O tempo para decidir, por si, o que fazer? O tempo para inventar, para imaginar, para criar, para fazer de conta — sozinho ou com os seus pares? O tempo, sobretudo, para a criança brincar, para estar com os outros, para conversar!

Não há crescimento sem espaço e tempo para brincar. Para brincar de forma livre, de forma autónoma, de forma não programada. É através da brincadeira (do brincar) que a criança conhece o mundo, aprende a estar e a viver com os outros, aprende a ultrapassar obstáculos, aprende a frustrar-se, aprende a superar-se a si mesma.

Recentemente, o pedagogo e pensador italiano Francesco Tonucci, responsável e impulsionador do projeto Cidade das Crianças (La cittá dei bambini) e para quem o brincar é condição absolutamente necessária para o desenvolvimento físico, psicológico e intelectual de qualquer ser humano, lançava um vigoroso repto no sentido da promoção da brincadeira como um direito inalienável de todas as crianças, chamando, em particular, a atenção para a responsabilidade dos adultos no sentido de garantir os espaços e os tempos necessários para que as crianças possam brincar e mover-se de forma livre.

Fujamos, pois, a este impulso — alienado e alienador — de encher e ocupar em permanência o tempo livre dos nossos filhos, seja empurrado pelo frenesim permanente em que vivemos, seja em nome de lhes darmos tudo o que estiver ao nosso alcance fazê-lo.

Corremos o risco sério de os estar a encher de coisas supérfluas, roubando-lhes ou, pelo menos, deixando lacunas graves em muito do que poderá ser essencial para o seu desenvolvimento e para a sua estruturação como pessoas equilibradas e completas.



Manuel Rangel (1956 – 2015) — Manuel Rangel foi diretor e coordenador pedagógico da escola Tangerina, Educação e Ensino, no Porto. Foi professor do 1.º ciclo em várias escolas públicas e privadas, professor do ensino superior na ESE de Lisboa, ESE de Santa Maria (Porto), FPCEUP e professor convidado na Universidade de Macau e na FEP da Universidade Católica do Porto. Foi ainda coordenador da equipa que elaborou os programas para o 1.º ciclo do ensino básico, na Reforma de 1989-1990. Foi um dos principais inspiradores e impulsionadores do LITERACIA 3D – o desafio pelo conhecimento, promovido pela Porto Editora.

 

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