Comunicação e linguagem na infância
Fátima Correia

O terapeuta da fala é o profissional responsável pela avaliação e intervenção nas áreas de linguagem, comunicação, fala, fluência, voz e deglutição. A sua ação, embora possa ser exercida de forma direta com o utente, também ocorre de forma indireta junto dos seus parceiros comunicativos. O papel da família e da escola, no caso das crianças, é essencial, não apenas na identificação da problemática e encaminhamento, mas também como parceiros do processo de intervenção terapêutica, uma vez que poderão dar continuidade ao trabalho realizado nos contextos em que a criança se insere. Deste modo facilitam a aquisição e generalização das suas aprendizagens onde efetivamente são necessárias.

O desenvolvimento infantil decorre ao longo de inúmeras etapas sequenciais, assinaladas por marcos de desenvolvimento característicos. Apesar destas fases se processarem segundo uma ordem cronológica identificada, as características individuais de cada criança e do contexto em que se insere influenciam este processo. Assim, podem verificar-se diferentes ritmos de desenvolvimento sem que, no entanto, se esteja na presença de uma perturbação.

A existência de um ambiente estimulante e parceiros comunicativos capazes são requisitos fundamentais para um desenvolvimento comunicativo e linguístico apropriado ou, nos casos de haver uma perturbação do mesmo, para que as dificuldades inerentes possam ser superadas ou atenuadas.

As dificuldades de linguagem, comunicação e fala podem afetar as aquisições e o progresso da criança na escola e, posteriormente, na sua vida social e profissional. A linguagem permite-nos receber, armazenar e utilizar a informação que apreendemos do mundo que nos rodeia através de um processo de manipulação simbólica. Somos, assim, capazes de organizar o pensamento e comunicar, quer seja por um sistema verbal, como a fala ou a língua gestual, quer por formas não verbais, como a expressão facial ou a reação corporal. Alterações ao nível da linguagem podem afetar, dependendo do tipo de perturbação, a forma como a criança se expressa e compreende e, consequentemente, a sua capacidade de aprendizagem. Por esse motivo é que crianças com este tipo de alterações apresentam frequentemente dificuldades no desenvolvimento das competências de leitura e da escrita. Deste modo, é essencial identificar o mais precocemente possível se o desenvolvimento da criança ocorre da forma esperada. O papel dos progenitores e dos educadores de infância é, assim, fundamental para a sinalização e posterior encaminhamento das crianças junto de profissionais qualificados na área, nomeadamente o terapeuta da fala. Para crianças em idade pré-escolar existem sinais de risco aos quais os cuidadores devem estar atentos, nomeadamente:


Sinais de risco ao nível da comunicação

  • Com 1 mês:
    – não responder/reagir à voz humana;
    – não produzir sons.

  • Aos 3 meses:
    – não virar a cabeça quando ouve uma voz;
    – não pegar e dar a vez nas interacções com os outros.

  • Aos 4 meses:
    – não sorrir para as pessoas que lhe falam.

  • Aos 5 meses:
    – não discriminar vozes amigáveis;
    – não responder ao nome.


  • Entre os 9 e os 12 meses:
    – não manifestar intenção para obter objectos ou a atenção dos outros.

  • Entre os 18 e os 20 meses:
    – não reagir quando a chamam por trás;
    – não mostrar interesse quando lhe é contado qualquer coisa;
    – não gostar de brincar a jogos como cu-cu ou “apanhada”;
    – não conseguir concentrar-se alguns minutos na mesma actividade;
    – não apontar para o objecto que quer;
    – não brincar ao faz-de-conta.

  • Dos 2 aos 5 anos:
    – não gostar de brincar com outras crianças;
    – não manter interesse quando lhe contam uma história.


    Sinais de risco ao nível da linguagem
  • Entre 12 e os 18 meses:
    – não apontar para os objectos nomeados;
    – não compreender ordens simples;
    – não produzir a primeira palavra.

  • Entre os 18 e os 24 meses:
    – não reagir ao “NÃO”;
    – não identificar objectos familiares;
    – não compreender categorias semânticas básicas (ex.: brinquedos, comida, roupa);
    – não nomear os objectos familiares;
    – não fazer frases com duas palavras;
    – não perguntar o nome dos objectos.

  • Entre 24 e os 30 meses:
    – não cumprir ordens de 2 comandos;

  • Entre 3 e os 4 anos:
    – dificuldades em compreender pedidos/recados;
    – não produzir frases com 4-5 palavras;
    – não usar plurais, pronomes possessivos, adjectivos e a negativa.

  • Entre 4 e 5 anos:
    – não compreender noções de tempo e quantidade;
    – discurso pouco estruturado, sendo só compreendida pelos pais;
    – não fazer perguntas do tipo: Porquê? Como? Onde? Quando?


  • Entre 5 e 6 anos:
    – não produzir frases complexas.


    Sinais de risco ao nível da fala
    Omitir, trocar e distorcer sons, tendo em conta que no desenvolvimento normal os mesmos surgem pela seguinte cronologia:

  • Aos 2 anos:
    – [m] (ex.: mão);
    – [p] (ex.: pato);
    – [n] (ex.: nabo);
    – [b] (ex.: bola);
    – [d] (ex.: dominó);
    – [t] (ex.: rato).


  • Aos 2 anos e meio:
    – [R] (ex.: remo);
    – [k] (ex.: carro);
    – [g] (ex.: gato).

  • Entre os 3 e os 3 anos e meio:
    – [f] (ex.: figo);
    – [s] (ex.: sapato).

  • Entre os 4 e os 4 anos e meio:
    – [l] (ex.: lapa);
    – [r] (ex.: cara);
    – [v] (ex.: vela);
    – [z] (ex.: zorro);
    – [j] (ex.: janela);
    – [ch] (ex.: xaile).
    – preferir alimentos pastosos a sólidos;
    – “falar pelo nariz”;
    – usar ou ter usado chupeta até muito tarde (3-4 anos);
    – continuar a gaguejar depois dos 5 anos;
    – demonstrar receio de falar por medo de gaguejar;
    – apresentar uma voz rouca;
    – gritar com muita frequência;
    – falar muito, muito rápido e muito alto.

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    Fátima Correia - é terapeuta da fala no Centro Médico, Terapêutico e Pedagógico “Comunicar”.

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