A entrada dos adultos na creche/jardim de infância
Adriana Campos
A entrada dos adultos na creche/jardim de infância
A entrada dos adultos na creche/jardim de infância

Para os pais cujos filhos estão prestes a entrar na escola, já paira alguma ansiedade no ar. Como é que eles irão reagir? Será que se vão adaptar facilmente? As lágrimas farão parte do processo ou a integração será feita sem grande choradeira?

Provavelmente, as questões que os pais colocarão neste momento têm sobretudo como alvo os filhos. Como é que eles...? Com a chegada do novo ano letivo, parece-me urgente que os pais comecem a colocar a questão do "nós". Como é que nós, pais, lidamos com a entrada dos nossos filhos no sistema de ensino? Colocar a questão desta forma não denota qualquer indício de egoísmo; bem pelo contrário. Não há dúvida de que o processo de adaptação à creche ou ao jardim de infância depende dos mais pequenos, mas depende também, e muito, da atitude dos mais graúdos.

Ilustrando o que atrás foi referido, imaginemos duas cenas diferentes, mas com as mesmas personagens. Numa delas, os pais, face às lágrimas dos filhos, ficam absolutamente rendidos. Abraçam-se a eles, prolongam o momento do adeus, questionam-se interiormente se será mesmo adequado deixá-los ali e não conseguem eles próprios deixar de chorar também. Imaginemos agora os mesmos pais e a mesma criança, mas com uma atitude diferente. Os pais interiormente já decidiram que aquela é mesmo a melhor opção para os filhos; estão convictos de que as lágrimas são quase inevitáveis e que, por isso, face a elas terão de adotar uma postura carinhosa, mas firme. Para além disto, têm consciência de que prolongar o adeus com abraços molhados só dificultará todo o processo. Sem grande reflexão e, certamente, quase de forma intuitiva, se depreenderá que as duas cenas descritas terão desfechos diferentes.

A ansiedade e a angústia são sentimentos que, se não forem bem geridos pelos pais, serão de imediato captados pelas crianças, gerando nelas um grande receio. O que pensará uma criança de 2-3 anos, ainda que não muito conscientemente, quando a mãe a leva à escola pela primeira vez e, passado pouco tempo, face à sua recusa em ficar naquele novo contexto, começa a chorar quase tanto como ela? "Se a minha mãe chora, é porque algo não muito bom estará certamente para acontecer. Logo, se eu chorar muito e me agarrar a ela, pode ser que me leve embora e não tenha de ficar neste local desconhecido." Assim se instala um ciclo vicioso, em que as angústias e lágrimas dos pais dificultarão o processo de adaptação dos filhos!

Um outro aspeto que é importante referir e que não facilita todo este processo é a chamada despedida às escondidas, que, basicamente, consiste na fuga dos pais, num momento de distração da criança. Esta é uma estratégia que pode ajudar os pais a não sofrerem tanto a pressão do protesto da criança, na medida em que podem virar costas. No entanto, para os filhos, a fuga pode gerar sentimentos de perda e abandono. Os pais devem clarificar muito bem que irão embora, mas voltarão para os buscar, ao fim de algum tempo.

É importante que os pais estejam conscientes de que a entrada na creche ou no jardim de infância é algo que promove o desenvolvimento das crianças em diferentes áreas, nomeadamente socialização, autonomia e linguagem. Além disso, passado o período inicial de tempestade inerente ao processo de adaptação, vem a bonança! Regra geral, o processo de adaptação poderá demorar cerca de um mês. Se, ao fim deste período, a criança continuar a manifestar sinais de desadaptação, será conveniente, em primeiro lugar, reunir com a educadora, no sentido de conhecer a sua perceção relativamente a esta situação. A avaliação por um especialista em psicologia é outra hipótese a considerar, se, entretanto, a situação não se tiver alterado.

Face ao exposto, falta ainda responder a uma questão relevante. O que poderá ajudar os pais a enfrentarem com menos angústia a entrada dos filhos na escola? A confiança na instituição. Esta confiança só poderá existir conhecendo não só as instalações mas também os educadores.

Resta apenas lembrar que as lágrimas, normalmente, fazem parte desta etapa de transição. Acresce que, embora fiquemos com o coração apertado, não nos podemos esquecer de que o sofrimento, por muito que o queiramos banir, é algo inerente ao processo de crescimento.

In educare, “A entrada dos adultos na creche/jardim de infância”



Adriana Campos — Licenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos, e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do Padrão da Légua, em Matosinhos.

 

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