Ser educador é, sobretudo, estar atento ao mundo!
Manuel Rangel

Há uns anos atrás, tive o privilégio de assistir, aqui em Portugal, a um curso para formadores, orientado por um inspetor francês, da zona de Lille, sobre inovação das práticas pedagógicas e, mais particularmente, sobre a pedagogia de projeto no jardim de infância e ensino primário. Pessoa muito interessante, com um grande sentido de humor e enorme sensibilidade, este inspetor tinha um notável “trabalho de campo” na dinamização, acompanhamento e apoio efetivo de projetos junto das escolas da sua área de influência, como pude constatar numa visita que fiz, mais tarde, a essas escolas.

No final do referido curso, em Lisboa, uma das participantes perguntou ao senhor Frenet, qual a bibliografia fundamental que ele aconselharia sobre os temas que tinha abordado – inovação das práticas e trabalho de projeto. Após uns segundos de pausa, afirmou que recomendaria a leitura dos jornais diários. Creio que, por uns segundos também, ficámos todos na sala com a ideia de que não tínhamos percebido corretamente a sua resposta; talvez houvesse ali um problema de tradução, uma vez que a sessão era em francês! Mas ele, rapidamente, dissipou as nossas dúvidas, dizendo qualquer coisa do tipo (cito, naturalmente, de memória): que livros, claro, haveria muitos, e muito importantes; que não pararia de os citar se quisesse enunciar tudo o que considerava importante para a situação… bem vistas as coisas, toda a pedagogia! Mas que isso, certamente, já conheceríamos, e que também não seria isso, só por si, que levaria ou ajudaria alguém a praticar uma pedagogia diferente. O que era “verdadeira, verdadeiramente decisivo” para um educador, para um professor, para alguém que trabalha com crianças, era, isso sim, estar atento e permanentemente informado sobre tudo o que se passa à sua volta, estar aberto ao mundo!

Jamais pude esquecer esta resposta, simultaneamente tão desconcertante, face ao pedido que lhe havia sido feito, mas tão assertiva.

O fim de um ano, princípio de outro, é sempre um momento propício a balanços. É, pois, esta a reflexão que proponho para este início de um novo ano. Um ponto de situação, uma chamada de atenção em relação à nossa atitude, à nossa forma de estar, ao nosso foco, às nossas prioridades, quando estamos com crianças e, sobretudo, quando temos como missão educá-las.


As crianças são do hoje, são do agora e são, fundamentalmente, do amanhã.


É verdade que nos cabe passar-lhes a “herança”, muni-los dos “instrumentos básicos” de acesso à cultura e por aí fora... Mas podemos fazê-lo – diria mesmo que só faz sentido fazê-lo - numa escola que seja também ela uma escola do hoje, do agora, do amanhã. Não uma escola do passado, uma escola vazia de referências ao mundo atual, uma escola seca de vida e de referências ao mundo deles “lá fora”, o mundo em que vivem.

E como o tenho dito noutras ocasiões, é tão válido ou tem tanto valor educativo estudar Mozart como os caracóis, falar do Espaço, de Picasso ou de Pessoa, como estudar “o rio da minha aldeia”.




Manuel Rangel - mestrado em Supervisão, pela Universidade de Aveiro. É professor e diretor pedagógico da Escola Tangerina, Educação e Ensino - Porto.

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