Doenças de Infantário
Hugo Rodrigues
Doenças de Infantário
Doenças de infantário

Com o aproximar do inverno, surgem, inevitavelmente, as infeções nas crianças, pelo que é importante estar preparado para as saber “receber”.

Assim, o primeiro ponto a reforçar tem a ver com a qualidade das infeções, porque a maior parte é perfeitamente “benigna”, já que são provocadas por vírus e acabam por passar por si, ao fim de 3- 5 dias. No entanto, o facto de não serem graves não quer dizer que não sejam perturbadoras, porque muitas delas deixam as crianças bastante desconfortáveis. Apesar de tudo, parecem ser importantes para o desenvolvimento das defesas do organismo, pelo que também têm um lado positivo.

O segundo aspeto tem a ver com a quantidade. Aqui já não existe uma regra muito certa, porque depende muito de cada criança, das suas defesas e do facto de ser o primeiro inverno passado na creche/jardim ou não. Este último ponto é extremamente importante, porque, no primeiro inverno, as crianças, geralmente, apanham, pelo menos, entre 5 e 6 infeções respiratórias em 3-4 meses, o que corresponde a uma média de uma infeção a cada duas semanas.

No entanto, apesar de ser um problema muito frequente, deve apostar-se na prevenção, pelo que há alguns conselhos importantes a relembrar, seja em casa seja na escola:

    1. Todas as crianças devem ser educadas e estimuladas a lavar frequentemente as
        mãos, porque é a melhor forma de evitar a propagação de microrganismos.
    2. Deve-se também ensinar as crianças a tossir e espirrar, que não deve ser para
        a mão, mas sim para o antebraço.
    3. Cada criança deve ter o seu lenço para se assoar, porque “partilhar” lenços é
         uma fonte de contágio gravíssima (eu sei que muitas pessoas que lerem este
        texto vão achar este comentário disparatado, mas acreditem que ainda há muita
        gente a utilizar o lenço “que está na bata” para mais do que uma criança).
    4. Apesar do frio e da humidade, é importante arejar as salas de aula e os espaços
        físicos onde as crianças se encontrem, de forma a diminuir a concentração de
        microrganismos presentes no ar.

Todos os anos estas infeções vão e vêm, e surge sempre a dúvida sobre se os meninos doentes podem ou não ir a escola. Este é um tema muito controverso, porque a única legislação que temos sobre o assunto remonta a 1995, onde estão claramente definidas as doenças de evicção escolar obrigatória. O problema é que a lista está claramente desatualizada (engloba, inclusivamente, doenças que não existem em Portugal há mais de 20-30 anos!) e não contempla as mais frequentes, pelo que fica um “vazio” legal. No entanto, apesar desse vazio, parece-me que é importante usar bom senso (como em tudo...) e reforçar alguns conceitos que considero extremamente importantes:

    1. A febre é, geralmente, um indicador de que a infeção está ativa, pelo que não é
        aconselhável as crianças com febre irem à escola.
    2. Qualquer criança prostrada, mesmo que na altura não tenha febre, deve também
        ficar em casa (estar prostrado não é estar mais “parado” um pouco, é não reagir
        ao que o rodeia e comportar-se quase como se estivesse a dormir, estando
        acordado).
    3. Todos os outros sintomas têm menos significado no desenrolar da doença e, salvo
        em situações pontuais, não devem ser utilizados como fator de decisão sobre a
        ida das crianças para a escola ou não (por exemplo, a tosse, nas infeções
        respiratórias, dura frequentemente 2-3 semanas, pelo que não é aceitável que a
        ausência à escola se prolongue durante todo esse tempo).
    4. Qualquer criança que tenha uma infeção provocada por bactérias e que esteja a
        fazer o respetivo tratamento antibiótico pode regressar à escola ao fim de
        24 horas sem febre (mesmo que ainda mantenha o antibiótico), salvo indicação
        médica em contrário.

Posto isto, gostaria apenas de reforçar que a maior parte das infeções que as crianças apanham agora no inverno são efetivamente víricas e, apesar de pouco agradáveis, não representam grande gravidade. É como diz o ditado, “não mata mas mói”.



Hugo Rodrigues - é pediatra na Unidade Local de Saúde do Alto Minho, EPE onde, para além da sua atividade como pediatra geral, tem ainda uma consulta especializada em medicina da adolescência. Para além da atividade clínica, desempenha funções de docência na Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho e na Escola de Tecnologias da Saúde do Instituto Politécnico do Porto. Faz ainda parte, como formador, do Grupo de Reanimação Pediátrica, entidade responsável pela formação a nível nacional na área da emergência pediátrica. Integra a Direção da Sociedade Portuguesa de Medicina do Adolescente e colabora como revisor com a Acta Pediátrica Portuguesa, revista oficial da Sociedade Portuguesa de Pediatria. É pai (muito orgulhoso) de dois filhos, com 3 e 5 anos, com quem tem "aprendido imenso", como costuma dizer.
blogpediatriaparatodos.blogspot.pt

 

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