Educar exige tempo e disponibilidade
Manuel Rangel

Educar, criar hábitos pessoais e sociais corretos, desenvolver a autonomia das crianças exige muita vontade e determinação, mas também muito tempo e disponibilidade – tudo aquilo que, em geral, falta às famílias de hoje!

Reprimir as birras, deixar as fraldas, largar a chupeta e o biberão, comer pela sua mão, saber estar à mesa com os adultos, vestir-se a si próprio, tomar banho sozinho, respeitar os outros, em particular os mais velhos, cumprir regras são, efetivamente, hábitos fundamentais para o crescimento das crianças, mas que, ao contrário do que pode parecer, exigem de nós, pais e educadores, muito tempo.

Se elas viessem ensinadas e treinadas seria, então sim, para nós, muito mais fácil: já teriam todos esses hábitos interiorizados! Mas como assim não é, muitas vezes, dá menos trabalho e é bem mais fácil: ceder ao choro e dar-lhes o que querem no momento, porque já não os podemos ouvir; pôr-lhes uma fralda, para não termos de nos levantar duas ou três vezes durante a noite ou, então, para não estarmos ali tanto tempo à espera…; dar-lhes a chupeta, para que adormeçam mais depressa; “enfiar-lhes” o biberão enquanto nos vestimos; vesti-los e “despachá-los” de manhã para podermos chegar todos a horas ao trabalho; dar-lhes de jantar na cozinha, separados do resto da família, para jantarmos em paz; deixá-los interromper e sobreporem-se aos adultos, senão não se calam; etc., etc., etc.

É, de facto, mais consentâneo com o nosso ritmo de vida, com as exigências atuais, com a nossa pressa constante, com o nosso frequente cansaço e até com o nosso comodismo cedermos, naquilo em que devíamos ser exigentes, deixarmos para amanhã aquilo que devia ser feito desde já, adiarmos um pouco o que sabemos vir a ser inevitável – “Até porque também nós temos os nossos interesses e temos de ter o nosso tempo e a nossa vida, então, não é?!… e eles, também, coitados!...”

Por isso – e afirmo-o com vasto conhecimento de causa – é, hoje, tão frequente ver crianças numa estranha discrepância: mexem com enorme à vontade em consolas, comandos, vídeos, computadores e telemóveis, papagueiam umas palavras em inglês, veem telenovelas e programas de gosto discutível, discutem com os pais, avós e educadores, mas, muitas vezes, aos 5, 6 , 7 anos ainda usam chupeta e até fralda à noite (pasme-se!!!), tomam biberão de manhã, são incapazes de estar sentados à mesa, não articulam a maioria das palavras com correção, mas interrompem, sistematicamente, os adultos!

Neste tempo de tanta contabilidade, para pais e educadores é uma pura ilusão esta economia de tempo e de esforço! Mais não fazem do que adiar os problemas e, na maior parte dos casos, de os agravar. Porque deixam consolidar hábitos que demorarão muito mais a corrigir, porque infantilizam as crianças, porque lhes criam, no futuro, problemas na relação com os outros e na convivência social e, sobretudo, porque atrasam a sua aprendizagem e o desenvolvimento da sua autonomia.

Em casa ou na escola, é necessário bom senso para educar! Mas, mais do que isso, é necessário tempo e disponibilidade: o tempo gasto na “hora certa” não é tempo perdido! É um tempo ganho em termos de bem-estar e desenvolvimento da criança… e, a prazo, em termos da sua própria liberdade e autonomia, enquanto adultos!




Manuel Rangel - mestrado em Supervisão, pela Universidade de Aveiro. É professor e diretor pedagógico da Escola Tangerina, Educação e Ensino - Porto.

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