Comer ou não comer...eis a confusão
Paula Veloso
Comer ou não comer...eis a confusão
Comer ou não comer...eis a confusão

É mesmo no infantário que os bons hábitos (alimentares e outros) devem começar a ser incutidos. Os pais, na maioria das vezes, não sabem que o objetivo da alimentação é a nutrição...

Deve ou não obrigar-se uma criança a comer no infantário, sopa, por exemplo, quando muitas vezes se sabe que os pais, apesar de exigirem que o infantário ou escola lhes sirvam uma alimentação saudável, em casa lhes oferecem alimentos com elevado teor de gorduras e açúcar, “esquecendo-se” tantas vezes dos laticínios, fruta, legumes ou outros alimentos indispensáveis a um crescimento saudável?

“De pequenino se torce o pepino”, diz acertadamente este velho ditado... É mesmo no infantário que os bons hábitos (alimentares e outros) devem começar a ser incutidos. Os pais, na maioria das vezes, não sabem que o objetivo da alimentação é a nutrição, ou seja, que é através dos alimentos que fornecemos ao nosso organismo todos os nutrientes indispensáveis ao crescimento, reparação e manutenção de todas as estruturas orgânicas, com vista a uma vida longa e com qualidade.

Os pais podem não ter consciência disso, mas a escola tem-na obrigatoriamente. E por isso tem que ser um modelo de boas práticas. Além disso, há que tirar partido do comportamento em grupo. É muito mais fácil a uma criança comer determinado alimento se os coleguinhas o fizerem, do que em casa onde muitas vezes os próprios pais não o fazem. É evidente que isto baralha as crianças, mas se lhes for dito de forma acessível quais os benefícios que daí colhem — melhor desempenho no desporto e na escola para os rapazes, e nas meninas, aproveitando um pouco a vaidade que as caracteriza, realçar que os olhos, o cabelo ou a pele podem ficar mais bonitos. Não é provável que se alegarmos motivos de saúde fiquem a meditar sobre isso...

Resumindo, deve obrigar-se a criança a comer, mas tendo em conta que:
- as crianças não comem todas a mesma quantidade, tal depende da sua capacidade gástrica e do seu apetite, que pode variar ao longo dos dias;
- deve saber-se distinguir uma intolerância alimentar do capricho de não querer comer ou provar certo alimento;
- cada criança poderá eleger uma sopa, um prato ou um fruto que não goste, mas dos outros, mesmo não gostando muito, terá que comer sempre um pouco (não tendo que ser exatamente a quantidade que a educadora entende que ele não deve comer).

Pão ou não às refeições?
O pão às refeições não é necessário, nem para crianças nem para adultos, uma vez que habitualmente entra noutras refeições do dia como o pequeno almoço, lanche ou snacks. O segredo de uma boa alimentação passa obrigatoriamente pela variedade e por isso o pão não deve substituir outros fornecedores de hidratos de carbono como massas, arroz ou leguminosas.

Os jardins de infância não têm bufete ou máquinas de distribuição de alimentos mas...
Apesar disso, muitas crianças comem o mesmo tipo de produtos já que os pais lhos colocam na merenda escolar. Quanto a isto, a solução parece-me fácil e já praticada em muitos locais. As instituições têm, ou devem ter, regulamento próprio, e basta que nele seja explícito que as crianças não podem levar comida de casa. Excluem-se aqui situações pontuais e especiais de intolerância ou alergia a algum alimento, obviamente. De certeza que vão comer o pãozinho, a fruta ou as bolachas, o leite ou o iogurte. As bolachas podem entrar na merenda desde que contenham muito pouco açucar e gordura, mas um bom pão é sempre preferível.

Refeições pouco apelativas
Em quase todos os artigos que tenho escrito relacionados com a alimentação escolar tenho levantado o problema da adaptação das ementas ao gosto das crianças e adolescentes. Embora quase todas as instituições escolares tenham serviç̧o de catering habitualmente coordenado por nutricionistas, reconheço que há uma falta de imaginação generalizada na confeção das ementas, havendo preocupação com o equilíbrio nutricional mas pouca no que diz respeito ao paladar que agrade à maioria. Podem ser equilibradas mas, se não forem ingeridas, de nada serve o equilíbrio...

In Educare, Comer ou não comer... eis a confusão.

Paula Veloso — Nutricionista e autora de Dietas sem Dieta, Dieta sem Castigo e Peso, uma questão de peso.

 

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