Geração “Chicco”
Manuel Rangel

“Quem não se lembra ainda do anúncio sobre o pão sem cantos nem côdea? Um verdadeiro monumento – escandaloso, do meu modesto ponto de vista! – a este tipo de gerações que estamos a formar!”

Estamos a formar aquilo a que chamo as gerações “Chicco” (passe a publicidade).

Queremos, para as crianças, “escorregas” sem esquinas, sem pregos, sem parafusos ou farpas. Queremos jardins sem objetos pontiagudos, sem paus, sem pedras; queremos bancos de jardim sem rugosidades nem lascas; queremos redes e grades sem ferrugem; parques sem gravilha nem degraus, com pisos não abrasivos, com chão antiderrapante; queremos mesas sem cantos, degraus sem esquinas, corrimões boleados; janelas que não abram, portas que não fechem… Enfim, para ELES tudo muito seguro! Tudo sem qualquer perigo, sem riscos nem obstáculos!

(Talvez seja por isso que se veem, ultimamente, tantas crianças de 6-7 anos que sobem e descem escadas com tanta dificuldade e sem alternar os pés – o que deveriam ter aprendido aos 3-4 anos de idade!)

Mas não é só nisso que somos tão “cuidadosos” e tão “preocupados”!

Quem não se lembra do anúncio sobre o pão sem cantos nem côdea? Um verdadeiro monumento – escandaloso, do meu modesto ponto de vista! – a este tipo de gerações que estamos a formar! Mas o problema é que nós vamos embarcando nisso!

Fruta? Não! Tem caroços, custa(-nos) a descascar, suja(-nos) tudo… e já há em plástico ou vidro pronta a beber – o “essencial”! E há sumos e papas! Peixe? É aquela coisa terrível com espinhas… uma aflição! E para quê esse trabalho (deles/nosso?!) se há aquela massa em rolinhos que o imita tão bem (e que o pão ralado ainda ajuda a disfarçar!)? Sopa? Sim… mas passada, claro! – sucessora dos frasquinhos de tão boa carreira nos primeiros meses de vida! Agora couves, isso não! Enrolam-se na boca, prendem-se nos dentes! Até lhes dá vómitos! (E é verdade! Tenho encontrado dezenas de crianças nessa situação… com verdadeiros vómitos!). Carne? De preferência também passada!... Comem melhor! (E vão-se treinando para os hambúrgueres!) Pelo menos, muito disfarçada! De um bife sempre hão de gostar, mais tarde! Batatas fritas, isso claro! Há aquelas de pacote ou em pasta para fritar!... De facto, só quase falta o pão sem côdea!

Mas em casa, com os “espaços”, é a mesma preocupação! ELES em ‘primeiro lugar’! Um quarto para cada! Cada um pode ter as suas coisas, sem implicar (e sem termos de os ouvir a toda a hora)! Televisões? Sim, claro, pelo menos duas ou três na casa! Senão passam o tempo pegados (e nós a resolver os conflitos)! Livros? Cada qual tem os seus, ou então é uma guerra… e é o mesmo com o computador e a Playstation!... O quê, mais de dois filhos?!... Já assim é um sarilho no carro!...

Que tudo isto é feito a pensar no melhor para ELES, não tenho a menor dúvida! Mas não sei se é o melhor que lhes poderíamos ou deveríamos fazer!


“Rosas sem espinhos!” – quando todos nós sabemos, tão bem e por experiência própria, que essas só em estufas… e são casos raros!

Porque vai chegar o momento em que vamos ter que lhes pedir esforço, em que queremos que enfrentem os obstáculos, em que achamos necessário que encarem as dificuldades… e, nessa altura, “não percebemos porquê”(!!!)… mas não estão habituados!

Num momento em que as dificuldades à nossa volta são tantas, em que o futuro não se mostra nada risonho e em que as perspetivas não parecem ser para, a curto/médio prazo, melhorar, talvez valha a pena pensarmos um pouco no que andamos a fazer e em como os estamos a preparar!



Manuel Rangel - mestrado em Supervisão, pela Universidade de Aveiro. É professor e diretor pedagógico da Escola Tangerina, Educação e Ensino - Porto.

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