O livro de vidro
Expresso/ Atual
|27-06-2009
PEDRO SENA-LINO (n. 1977) é sobretudo conhecido como poeta ? tem sete livros publicados ? e professor de escrita criativa. Neste momento, está a doutorar-se em Literatura Feminina do Século XVII, uma investigação académica que serviu decerto como detonador para o seu primeiro romance, "333", publicado pela Porto Editora numa edição em capa dura ? e que tem merecido um esforço promocional considerável (raro, diga-se, em autores estreantes). Decalcando-a de Soror Mariana Alcoforado, mas igualmente de outras mulheres vítimas de "séculos de apagamento", Sena-Lino começa por inventar uma freira que escreve, em latim, 12 extraordinárias Cartas de amor (talvez místico, talvez carnal). Chama-se Soror Flâmula da Encarnaçam (1538-1622), é portuguesa (reclusa no imaginário Mosteiro de Santa Maria Madalena), e as suas ardentes palavras acabam impressas, em Milão, por Darius Waerminger, um respeitado discípulo de Aldus Manutius. Enfeitiçado pelas Cartas, Waerminger esmera-se na produção de cada um dos 333 exemplares do livro, ricamente encadernados e transportando, lá dentro, "a sua vida impressa". Isto é, uma espécie de totalidade, já que "observava em cada livro composto como o seu coração se desdobrava e se expandia, como se tivesse encontrado um lugar definitivo no mundo para todos os seus sentimentos". É a disseminação pela Europa desta obra que tudo reflete, exalta e absorve (semelhante a "um livro de vidro, onde todos os homens possam ler e ver-se no que serão completamente no futuro") que o romance procura traçar. Ao fazê-lo, fragmenta-se em dezenas de pequenas histórias, uma para cada leitor ou proprietário das Cartas (histórias que podem durar uma frase ou um capítulo inteiro).



No fundo, Sena-Lino oferece-nos o inventário das vidas que o livro transformou, o somatório das existências em que o livro se imprime. Há umas quantas epifanias, claro, mas sobretudo desastres, horrores, tragédias. Num universo saturado de símbolos, predominam as destruições pelo fogo (com destaque para aquelas em que intervém Frei Jusué da Sarça Ardente, um censor obstinado) e pela água. A arquitetura de "333" ? original, sólida, bem articulada ? é o seu maior trunfo. O problema está na escrita de Sena-Lino, no excesso metafórico, na ênfase lírica, que boicota ou entorpece o processo ficcional, no abuso de expressões gongóricas ("a profundidade secreta da sua alma", o olhar que golpeia "de eternidade", os amantes "rasgando-se num relâmpago interior de prazer", etc). Sente-se a falta de um maior trabalho de edição, que podia ainda ter evitado pleonasmos ("entrar dentro da loja"; "há uns anos atrás"), diversas incongruências narrativas e até erros toponímicos.

José Mário Silva



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