Oscar Wilde? Não, Wao
Diário Notícias/ notícias sábado
|23-05-2009
Oscar Wilde? Não, Wao
A triste vida de um dominicano gordo.
A América - sempre a América oferece-nosconstantemente grandes livros e autores que vão deslumbrar o mundo. Ou pretende fazê-to, porque nem sempre o consegue. Desta vez é um prémio Pulitzer, o do ano passado, que publicou um primeiro livro e é logo alcandorado ao estatuto de obraprima na avalancha de criticas que o acompanha. Chama-se a obra A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao e o seu autor é, como o protagonista deste livro, de origem dominicana. Conta-nos a vida de um jovem que é incapaz de seguir as grandes tradições machistas do seu país e, por isso mesmo, vive sem grande sucesso entre as miúdas e as mulheres que o rodeiam na selva norte-americana. Curiosamente, fugindo ao politicamente correto que se pretende existir nos Estados Unidos, o livro passa de critica em critica e de página em página a contestar essa ausência de conquistas físicas do protagonista. Essa ausência de um papel principal entre os colegas. E nem a sua obesidade é contestada, mas apenas dada como exemplo de dificuldade acrescida na tarefa que lhe é exigida de domar umas garinas para a satisfação dos seus apetites sexuais.
Oscar Wao é, portanto, o anti-herói dos imigrantes que vivem nas franjas da sociedade branca e negra, esse recanto de milhões de latinos que se vão infiltrando no statu quo de uma América transformada de binómio em trinómio porque valem muitos votos e o lugar presidencial na Casa Branca. No entanto, ele consome pilhas de comics e partilha o gosto pelas histórias de invasões de extraterrestes que vindos, também eles, de fora desejam implodir o mundo tal como ele é conhecido. Oscar Wao transporta para os seus estudos universitários a mesma química que impõe ao sexo feminino, mais do que boas notas, uma excelente performance sexual precoce nos campus das instituições do país. Oscar Wao é impelido a ser um deles mas não consegue fugir ao seu destino de ser um gordo, indolente e frustrado membro da sociedade americana do novo milénio.
As irmãs, as primas e as amigas não gostam dele porque não é macho o suficiente e não se enfia num carro para violar nenhuma delas. A mãe bem o incita a cumprir o que é tradicional num país de onde os americanos destronaram o líder Trujillo, este sim, ditador e macho o suficiente. Que tem correspondência nos protótipos sociais mal-amados dos Estados Unidos de sempre, o namorado branco que bate na sua melhor amiga ou o mal- comportado mas bem dotado, também branco, que faz sofrer sexualmente a amiga da irmã.
Oscar Wao não faz lembrar Oscar Wilde a não ser no título. São personagens e autores de estatutos e vidas bem diferentes, apesar de ambos serem uma espécie de proto-vitorianos que não se encaixam na sociedade pouco modelar em que vivem. Oscar Wao tem um grande truque, a sucessiva inclusão de eminências pardas que satisfazem qualquer voyeur sexual com relativa experiência e que fazem o leitor aguardar por um orgasmo final que interrupções constantes vão adiando. É assim como uma versão muito mais light daquele desavergonhado cubano chamado Pedro Juan Gutiérrez que faz dos seus livros epopeias dos tempos em que os americanos dominavam a ilha. Junot Díaz é de outra geração e falo de outro modo, mas a história volta ao princípio e está lá toda. Nem evita a iniciação do leitor ao mundo do esotérico com a justificação de todos os azares da sua personagem, numa brilhante definição de azar que dá pelo nome de «fukú». E nas primeiras páginas o leitor americano é agarrado pelos colarinhos quando é ao «fukú* que se deve o melhor assassínio de todos os tempos, o de J.F.K. Isto bem merecia um Pulitzer, não há dúvida, afinal está tudo ali. Só falta mesmo é o rock'n'roll, mas isso é coisa do passado.
Oscar Wao tem a grande vantagem de ser fruto de uma boa tradução porque Junot Diaz não facilita a vida nesta escrita que lhe levou onze anos a fazer. Baralha, atrapalha, esbugalha, faz tudo o que um autor pode realizar na linha de um ultrapassado realismo mágico agora trespassado à prosa, como se travestisse Garcia Márquez num Cormac McCarthy latino. E safa-se. Safa-se muito bem.
A triste vida de um dominicano gordo.
A América - sempre a América oferece-nosconstantemente grandes livros e autores que vão deslumbrar o mundo. Ou pretende fazê-to, porque nem sempre o consegue. Desta vez é um prémio Pulitzer, o do ano passado, que publicou um primeiro livro e é logo alcandorado ao estatuto de obraprima na avalancha de criticas que o acompanha. Chama-se a obra A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao e o seu autor é, como o protagonista deste livro, de origem dominicana. Conta-nos a vida de um jovem que é incapaz de seguir as grandes tradições machistas do seu país e, por isso mesmo, vive sem grande sucesso entre as miúdas e as mulheres que o rodeiam na selva norte-americana. Curiosamente, fugindo ao politicamente correto que se pretende existir nos Estados Unidos, o livro passa de critica em critica e de página em página a contestar essa ausência de conquistas físicas do protagonista. Essa ausência de um papel principal entre os colegas. E nem a sua obesidade é contestada, mas apenas dada como exemplo de dificuldade acrescida na tarefa que lhe é exigida de domar umas garinas para a satisfação dos seus apetites sexuais.
Oscar Wao é, portanto, o anti-herói dos imigrantes que vivem nas franjas da sociedade branca e negra, esse recanto de milhões de latinos que se vão infiltrando no statu quo de uma América transformada de binómio em trinómio porque valem muitos votos e o lugar presidencial na Casa Branca. No entanto, ele consome pilhas de comics e partilha o gosto pelas histórias de invasões de extraterrestes que vindos, também eles, de fora desejam implodir o mundo tal como ele é conhecido. Oscar Wao transporta para os seus estudos universitários a mesma química que impõe ao sexo feminino, mais do que boas notas, uma excelente performance sexual precoce nos campus das instituições do país. Oscar Wao é impelido a ser um deles mas não consegue fugir ao seu destino de ser um gordo, indolente e frustrado membro da sociedade americana do novo milénio.
As irmãs, as primas e as amigas não gostam dele porque não é macho o suficiente e não se enfia num carro para violar nenhuma delas. A mãe bem o incita a cumprir o que é tradicional num país de onde os americanos destronaram o líder Trujillo, este sim, ditador e macho o suficiente. Que tem correspondência nos protótipos sociais mal-amados dos Estados Unidos de sempre, o namorado branco que bate na sua melhor amiga ou o mal- comportado mas bem dotado, também branco, que faz sofrer sexualmente a amiga da irmã.
Oscar Wao não faz lembrar Oscar Wilde a não ser no título. São personagens e autores de estatutos e vidas bem diferentes, apesar de ambos serem uma espécie de proto-vitorianos que não se encaixam na sociedade pouco modelar em que vivem. Oscar Wao tem um grande truque, a sucessiva inclusão de eminências pardas que satisfazem qualquer voyeur sexual com relativa experiência e que fazem o leitor aguardar por um orgasmo final que interrupções constantes vão adiando. É assim como uma versão muito mais light daquele desavergonhado cubano chamado Pedro Juan Gutiérrez que faz dos seus livros epopeias dos tempos em que os americanos dominavam a ilha. Junot Díaz é de outra geração e falo de outro modo, mas a história volta ao princípio e está lá toda. Nem evita a iniciação do leitor ao mundo do esotérico com a justificação de todos os azares da sua personagem, numa brilhante definição de azar que dá pelo nome de «fukú». E nas primeiras páginas o leitor americano é agarrado pelos colarinhos quando é ao «fukú* que se deve o melhor assassínio de todos os tempos, o de J.F.K. Isto bem merecia um Pulitzer, não há dúvida, afinal está tudo ali. Só falta mesmo é o rock'n'roll, mas isso é coisa do passado.
Oscar Wao tem a grande vantagem de ser fruto de uma boa tradução porque Junot Diaz não facilita a vida nesta escrita que lhe levou onze anos a fazer. Baralha, atrapalha, esbugalha, faz tudo o que um autor pode realizar na linha de um ultrapassado realismo mágico agora trespassado à prosa, como se travestisse Garcia Márquez num Cormac McCarthy latino. E safa-se. Safa-se muito bem.
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