A assombrosa vida de Oscar Wao segundo Junot Diaz
Diário Digital
|09-06-2009
Texto: Pedro Justino Alves
É sem dúvida um dos lançamentos do ano até ao momento. Pela sua linguagem, pelo seu ritmo, pelas suas histórias, pelo seu carisma, pelo seu clima. «A Breve e Assombrosa Vida de Óscar Wao», de Junot Díaz, editado pela Porto Editora, traz-nos de volta a grande literatura, aquela em que a sensação de perda nos esmaga quando atingimos o ponto final do livro, o ponto que significa que tudo acabou. Se em termos de prémios literários nem sempre vence a melhor obra, desta vez o Pulitzer Prize de 2008 está bem entregue.
O problema de muitos livros é o seu desfecho, já que terminar uma obra é para muitos um sacrifício. Mas não é o que acontece em «A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao». Num hino à sobrevivência, Junot Díaz reclama que é precisamente nas pequenas coisas da vida onde podemos encontrar os maiores prazeres da nossa existência, acima inclusive do sexo. No entanto, para lá chegar, Oscar Wao teve de sofrer muito?
O personagem do primeiro livro de Díaz é um dominicano, tal qual o seu autor, que sofre a tortura de ser um autêntico cromo, o que o afasta da cultura machista do seu país - que enaltece os poderes de sedução e feitos sexuais dos dominicanos -, e que Oscar Wao procura a todo custo seguir. Mas obviamente que não consegue, nem no seu país, nem nos Estados Unidos. Obeso, sem o dom da palavra, infantil, Wao vagueia por uma sociedade que não foi feita para si (e para muitos outros), uma sociedade que o empurra inclusive para o suicídio. E por isso não é de estranhar o seu desejo por histórias de extraterrestres, o seu gosto pela leitura de ficção científica, a sua entrega a um mundo algo enjeitado. Espera, no seu íntimo, a transformação da sociedade em que vive (a nossa), como acontece sempre nos comics?
Ao mesmo temo que conhecemos a agonia de Wao conhecemos a angustiante e dolorosa história da sua família, da sua mãe, da sua avó, da sua irmã, única que o entende e compreende, muito porque ela própria não se vê enquadrada no Mundo onde vive. Na terra natal de todos, na República Dominicana, todos sonham deixar o país, numa fuga para à frente em relação às desgraças que acompanham as suas vidas. Mas todos os protagonistas vão perceber que os problemas surgem em qualquer parte do Mundo, inclusive nos Estados Unidos, a miragem que muitos encaram como resolução de todos os seus problemas.
«A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao» retrata, ao mesmo tempo, o terror que foi viver durante a ditadura de Rafael Leónidas Trujillo, um ditador que não perdoava nem as filhas e mulheres dos seus amigos mais próximos. Todo o horror causado por Trujillo e os seus comparsas está no livro, que fez questão de não perdoar uma das páginas mais negras da República Dominicana e, inclusive, do Mundo.
Como seria de esperar, a magia negra não poderia ser colocada de lado nesta obra. Aliás, a magia negra é mesmo a personagem principal, mais inclusive que Oscar Wao, já que as desgraças da sua vida, da sua família e do seu país aconteceram devido ao «Fukú americanus, ou, mais coloquialmente, fukú» (página 11. O jogo de palavras com o fuck you não é certamente inocente?), uma maldição que os europeus trouxera, aquando desembarcaram no Novo Mundo, «um demónio arrastado para a Criação através da porta dos pesadelos que foi escancarada nas Antilhas».
Nota ainda para a excelência da tradução de Victor Cabral, já que teve certamente muitas dores de cabeça para traduzir esta obra. A decisão de manter algumas palavras na sua origem foram acertadas e o ritmo que Junot Díaz imprimiu ao livro nunca é perdido na versão portuguesa.
Lamentámos que o fukú tenha assolado «A Breve e Assombrosa Vida de Óscar Wao», mas felizmente não assolou as palavras de Junot Diaz. Brilhante!!!
É sem dúvida um dos lançamentos do ano até ao momento. Pela sua linguagem, pelo seu ritmo, pelas suas histórias, pelo seu carisma, pelo seu clima. «A Breve e Assombrosa Vida de Óscar Wao», de Junot Díaz, editado pela Porto Editora, traz-nos de volta a grande literatura, aquela em que a sensação de perda nos esmaga quando atingimos o ponto final do livro, o ponto que significa que tudo acabou. Se em termos de prémios literários nem sempre vence a melhor obra, desta vez o Pulitzer Prize de 2008 está bem entregue.
O problema de muitos livros é o seu desfecho, já que terminar uma obra é para muitos um sacrifício. Mas não é o que acontece em «A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao». Num hino à sobrevivência, Junot Díaz reclama que é precisamente nas pequenas coisas da vida onde podemos encontrar os maiores prazeres da nossa existência, acima inclusive do sexo. No entanto, para lá chegar, Oscar Wao teve de sofrer muito?
O personagem do primeiro livro de Díaz é um dominicano, tal qual o seu autor, que sofre a tortura de ser um autêntico cromo, o que o afasta da cultura machista do seu país - que enaltece os poderes de sedução e feitos sexuais dos dominicanos -, e que Oscar Wao procura a todo custo seguir. Mas obviamente que não consegue, nem no seu país, nem nos Estados Unidos. Obeso, sem o dom da palavra, infantil, Wao vagueia por uma sociedade que não foi feita para si (e para muitos outros), uma sociedade que o empurra inclusive para o suicídio. E por isso não é de estranhar o seu desejo por histórias de extraterrestres, o seu gosto pela leitura de ficção científica, a sua entrega a um mundo algo enjeitado. Espera, no seu íntimo, a transformação da sociedade em que vive (a nossa), como acontece sempre nos comics?
Ao mesmo temo que conhecemos a agonia de Wao conhecemos a angustiante e dolorosa história da sua família, da sua mãe, da sua avó, da sua irmã, única que o entende e compreende, muito porque ela própria não se vê enquadrada no Mundo onde vive. Na terra natal de todos, na República Dominicana, todos sonham deixar o país, numa fuga para à frente em relação às desgraças que acompanham as suas vidas. Mas todos os protagonistas vão perceber que os problemas surgem em qualquer parte do Mundo, inclusive nos Estados Unidos, a miragem que muitos encaram como resolução de todos os seus problemas.
«A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao» retrata, ao mesmo tempo, o terror que foi viver durante a ditadura de Rafael Leónidas Trujillo, um ditador que não perdoava nem as filhas e mulheres dos seus amigos mais próximos. Todo o horror causado por Trujillo e os seus comparsas está no livro, que fez questão de não perdoar uma das páginas mais negras da República Dominicana e, inclusive, do Mundo.
Como seria de esperar, a magia negra não poderia ser colocada de lado nesta obra. Aliás, a magia negra é mesmo a personagem principal, mais inclusive que Oscar Wao, já que as desgraças da sua vida, da sua família e do seu país aconteceram devido ao «Fukú americanus, ou, mais coloquialmente, fukú» (página 11. O jogo de palavras com o fuck you não é certamente inocente?), uma maldição que os europeus trouxera, aquando desembarcaram no Novo Mundo, «um demónio arrastado para a Criação através da porta dos pesadelos que foi escancarada nas Antilhas».
Nota ainda para a excelência da tradução de Victor Cabral, já que teve certamente muitas dores de cabeça para traduzir esta obra. A decisão de manter algumas palavras na sua origem foram acertadas e o ritmo que Junot Díaz imprimiu ao livro nunca é perdido na versão portuguesa.
Lamentámos que o fukú tenha assolado «A Breve e Assombrosa Vida de Óscar Wao», mas felizmente não assolou as palavras de Junot Diaz. Brilhante!!!
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Porto Editora



