Quando as estátuas rasgam de sede
Os meus livros
|01-07-2009
Prós - A limpidez da o atrevimento no discurso do amor.
Contras - Nada de relevante.
"O livro de Soror Flâmula chegava às mãos de Darius Waerminger." Darius Waerminger, impressor, dizia: "Eu sou apenas um pastor de livros". O primeiro romance de Pedro Sena-Lino (1977), poeta e professor de escrita criativa, acompanha o trajeto desse livro impresso por Darius e dos seus 333 exemplares.
Doutorando em Literatura Feminina do século XVII, o autor dedica a sua tese às cartas de Feliciana de Milão, freira de Odivelas desse período. Ora o leitor não conhece Feliciana, mas ficará a conhecer as cartas de Flâmula da Encarnaçam, e não esquecerá Mariana Alcoforado, cujo eco Sena-Lino não esconde. Não sabemos se os livros escolhem os seus leitores, como a obra proclama, mas certamente neles os leitores se escolhem a si próprios.
É por isso nas cartas de Flâmula que o jovem Oudrian de Berzos aprende a conhecer Adam, o mercador de panos por quem se apaixonara: "Sabia, pela oitava Carta, como era o seu sono: pesado na terra e líquido no espaço, inventando a terra e fecundando-a".
Oudrian é apenas um dos leitores desse livro mágico, mas foi ele que anotou na contra-capa: "podia escrever em vento em todas as montanhas/ a velocidade de pedra do amor/ mas todas as estátuas rasgam de sede". Flâmula da Encarnaçam tinha tocado no vento e conhecido a água. Mas a mulher, como a estátua, às vezes rasga de sede.
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