Edição n.º 9, novembro de 2011

“Como em tudo, há sempre resistência à mudança e connosco isso também acontece. Mas temos que avançar, concordemos ou não.” Quem o diz é Maria Augusta Rocha, coordenadora de Português da Escola Secundária Infanta D. Maria, em Coimbra. Este é um sentimento comum entre os professores.

O convívio das duas grafias entre os alunos é o que mais preocupa os professores. Seja nos manuais escolares – uma vez que apenas as disciplinas sujeitas a adoção este ano foram alvo de manuais atualizados, ou caso exista reimpressão –, seja na comunicação social e nos meios envolventes.

“Enquanto produtores de texto, os alunos terem de ler com a grafia antiga é o grande entrave neste momento”, salienta Cristina Marques, professora da Escola EB2/3 de Oliveira Júnior, em São João da Madeira, e formadora dos novos programas de Português.

É por isso que muitos professores optam pela estratégia de usar os manuais com a escrita anterior como uma oportunidade de trabalhar este acordo com os alunos. Entre outras. “Aqui na escola decidimos arrancar o ano com 3 blocos de 90 minutos para divulgação e explicação das regras e para desenvolver algum sentido crítico”, refere a professora de São João da Madeira.

A realização de exercícios em concreto sobre as alterações é outra das iniciativas que António Rodrigues, Assunção Ribeiro e Fátima Neto – todos professores de Português de 7.º e 8.º anos – realizam na Escola EB2/3 de Paranhos, no Porto. “Os alunos já reparam e já estão atentos e uma das coisas que lhes pedi foi precisamente que me ajudassem e chamassem à atenção sempre que eu escrevesse errado”, salienta Fátima Neto.

 

Daniela, de 16 anos, diz que já tenta escrever com o acordo nas mensagens escritas, por exemplo, mas a sua principal dificuldade revela-se quando os professores começam a ditar o que escrever e tem de o fazer rapidamente. “Aí escrevo sempre com a grafia antiga”, desabafa.

“Se eu não fosse professora de Português não me submetia ao novo acordo.”
Paula Prazeres

Já para esclarecer as dúvidas dos docentes, as editoras tiveram um papel “importantíssimo”, confessa Paula Prazeres, professora de 6.º ano da EB2/3 Maria Manuela de Sá, em São Mamede de Infesta.

“A maior parte dos meus colegas não tem formação e quando a procurámos, tentámos ajuda em universidades privadas onde há alguma dispersão e insegurança por parte dos formadores”, reforça Teresa Gonçalves, professora de 3.º ciclo da mesma escola. “O conversor da Porto Editora também ajuda imenso, mas as edições em papel são um elemento fundamental.”

Cristina Marques, enquanto formadora dos novos programas, atribui particular importância à formação, por isso esteve na origem das sessões de esclarecimento que a EB2/3 de Oliveira Júnior realizou para os pais. “O texto do acordo não é descodificável nem explorável pela maioria dos professores, muito menos pelos pais e pelos funcionários que não lidam diariamente com estas vertentes linguísticas. Por isso, há que simplificar e desmistificar aquele texto do acordo quase impenetrável.”